
Lágrimas e cravos
Houve lágrimas. Uma adolescente vestida de preto - talvez uma das pessoas mais novas que ontem passaram por aquele salão - chorava. A mãe, também de luto, pousava a mão no ombro da filha.
Um senhor de meia-idade, com grandes óculos de massa - parecidos com os que Saramago usou em tempos - soltou, alto o suficiente para se ouvir a vários metros de distância, um "adeus camarada". E logo voltou as costas, deixando o salão. João Santos, desempregado, de Lisboa, saiu da sala da urna com o amigo António Velhas que vestiu fato para a ocasião. "É um homem com cultura, formado e merece a última homenagem", diz, explicando por que passou por ali. E quando chegam à rua comentaram que nunca tinham visto um morto de óculos. "Não se podia dizer que não era ele. Era ele mesmo."
De repente, as atenções voltaram-se para um homem que chegou à praça. De bóina vermelha na cabeça, Augusto Ramos, militante do PCP, segurava uma bandeira do partido que, bem esticada, era do comprimento dos dois braços estendidos. Conta já com umas boas dezenas de anos - as suficientes para ser do tempo em que muita gente não estudava. Confessou que não conhece a obra de Saramago. porque não sabe ler. "Eu gostava do Saramago como militante e como pessoa", disse sem nunca largar a bandeira. Numa das mãos segurava também um ramo de flores, com uma rosa, uma gerbéria e cravos vermelhos. Quando saiu do edifício, já só trazia a bandeira. E, num gesto de despedida, ergueu o punho cerrado. Dobrou a bandeira vermelha e deixou a praça.